Há problema em abortar?

 Prática é radicalmente abominada por uns e totalmente defendida por outros

Edir Macedo, lider da Universal, defende o aborto como forma de controle familiar. Foto: Reprodução Gospel Mais.

O aborto, assim como os outros temas pautados pelo blog, também divide opiniões entre os líderes protestantes no Brasil. A legalização da prática, aliás, é amplamente combatida pela bancada evangélica, predominante pentecostal no Congresso, e recebe apoio dos parlamentares católicos. 

Há quem seja totalmente contra, como é o caso de Hernandes Dias Lopes, um dos principais reverendos da Igreja Presbiteriana do Brasil. Para o religioso, o aborto é um assassinato, pois “a vida começa na concepção”. (Veja o posicionamento público). Aos que militam em favor da legalização, ele dispara “aqueles que defendem o aborto tiveram a chance de viver. Se eles recebessem o que desejam, não estariam aqui para defender essas coisas”.

Entre os que concordam com o aborto está o líder da Igreja Universal do Reio de Deus, que não concede entrevistas, mas não esconde seu posicionamento na biografia “O bispo- A história revelada por Edir Macedo”, assinada pelo vice-presidente de jornalismo da Record (de propriedade de Macedo), Douglas Tavolaro.

Para o empregado, o bispo confessou na página 179 “sou a favor do direito de escolha da mulher. O Brasil deveria se unir pelo direito da mulher de optar pelo aborto. Nossos governantes deveriam se empenhar para isso e não se curvar diante da pressão de alguns segmentos religiosos. Certamente, grande parte de nossas mazelas sociais diminuiria”.

Como parte de sua defesa, Macedo indaga “é melhor a mulher não ter filho, ou ter e jogar o bebê na lata do lixo? O número de meninas solteiras de 12, 13 anos dando à luz não para de crescer. Crianças que deveriam estar na escola, mas estão em casa cuidando dos filhos”, conclui.

Já para Patrick Mandela, presbítero da Assembleia de Deus Ministério de Anápolis, a negação ao aborto se dá porque a Bíblia é contrária ao tema: "Em Êxodo fala que é pecado e em Jeremias Deus mostra que tem um plano para cada vida desde o ventre da mãe", explica.

Consumo de álcool divide opinião evangélica

Há quem seja totalmente contra, mas consumo moderado é defendido pela Igreja Anglicana.

Igreja Anglicana não condena o consumo de bebidas alcoólicas. Foto: Reprodução Gospel Mais.

Um assunto que gera bastante polêmica no meio evangélico, por se tratar de um costume social universal, é a ingestão de bebidas alcoólicas. A maioria das igrejas proíbe seus membros de beberem qualquer coisa que contenha álcool na composição, porém, como todos os assuntos polêmicos, há quem discorde dessa posição e defenda o consumo dessa substância.

É o caso do líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. Durante um culto em sua igreja, o bispo deu a seguinte declaração “a religião evangélica proíbe beber vinho, é ou não é? Mas eu bebo vinho, eu bebo um cálice de vinho. A religião proíbe beber cerveja, mas eu bebo cerveja quando eu estou com vontade, eu bebo e acabou! E quem é que vai me dizer pra eu não beber?”, declarou. Assista a declaração de Macedo.

Já Silas Malafaia, líder da Igreja Assembléia de Deus Vitória em Cristo, discorda totalmente da postura de Edir Macedo. Devido às crescentes dúvidas a respeito do tema, o pastor emitiu um comunicado oficial na internet para explicitar sua posição sobre o assunto.

Para o pastor “fomos separados para Deus. Como reis e sacerdotes do Altíssimo, não devemos ingerir bebidas alcoólicas para não dar lugar à nossa carne e ao pecado.” Silas ainda afirma que esse tipo de bebida não faz bem ao nosso corpo. “O álcool compromete nossos reflexos e nosso bom senso, e prejudica a nossa saúde”, completa.

Já a Igreja Anglicana Reformada no Brasil se posiciona de maneira mais flexível sobre o assunto, como esclarece o porta-voz da igreja, bispo Josep Rossello Ferrer.  “Não se pode afirmar que a Bíblia condena a bebida. Encontramos nas Escrituras avisos claros contra o estado de embriaguez, que leva à perda do controle dos sentidos, mas não vemos nenhuma restrição ao consumo moderado”, frisa.

Dízimos: Entregar ou Não?

Divergência é defendida teologicamente pelas igrejas
Para a Congregação Cristã no Brasil, a entrega do dizimo é restrita ao Velho Testamento. Foto: Reprodução Gospel Mais

Movimento evangélico e dinheiro: uma combinação que sempre rendeu muita polêmica. Inclusive dentro do próprio movimento. Há quem defenda que os pastores agem de má fé com os fiéis em busca de enriquecimento ilícito, e outros que defendem que eles apenas cumprem o seu papel mediante aquilo que a bíblia apresenta.

A divergência está entrega obrigatória dos dízimos (10% do salário) por parte do fiel. Enquanto uns pastores afirmam que a prática foi abolida por Jesus no Novo Testamento, outros ainda acreditam que Deus exige este comportamento dos fies, como uma forma de confiança na provisão divina.

Para Carlos Caixeta, pastor auxiliar da Igreja Clamor das Nações em Caldas Novas, “não há nada no Novo Testamento que rejeite a prática do dízimo”. Ele acredita que a pessoa que não dá o dízimo peca por causa da avareza. “Aquele que não consegue entregar o dizimo, que é apenas 10% daquilo que ganha para a obra de Deus, mostra um apego muito grande ao dinheiro e isso foi condenado claramente por Jesus”, frisou.

Já o pastor líder da Igreja Caminho da Graça, Caio Fábio, defende que a entrega dos dízimos não deve ser obrigatória. “Qualquer igreja que diz que se você não colocar o dinheiro no gasofilácio estará em pecado, está mentindo e realizando uma manipulação diabólica”. Acompanhe na íntegra a declaração do religioso.

Dentro do movimento protestante, há ainda, quem seja completamente contra a de entrega de dízimos. A igreja que pratica essa doutrina é a Congregação Cristã no Brasil. O estatuto da instituição deixa claro aos seus membros que eles não são adeptos desta prática, e que apenas aceitam ofertas voluntárias e não determinadas por partes dos seus frequentadores.

“O dízimo é apenas uma proporção estabelecida no Antigo Testamento, para a lei do culto ou cerimônia no templo. Já para o Novo Testamento não há essa imposição. Deus o aprovou no Velho Testamento, porém não o estabeleceu no Novo. É apenas uma menção de nossa obrigação de contribuir”, conforme a página virtual da Congregação Cristã no Brasil.

Homossexualidade: os três lados de uma mesma fé

Ao contrário do que a mídia diz, evangélicos não são unanimes com relação a homossexualidade.

Pastores Malafaia, Ricardo Gondim, e Fábio Inácio tem posicionamento diferenciado sobre o tema.
 Foto: Reprodução redes sociais

Engana-se quem acredita que o pensamento da igreja evangélica em relação à homossexualidade é uniforme. É comum, graças ao discurso midiatico, as pessoas alheias ao movimento imaginarem que todas as correntes do protestantismo são contra as uniões homo afetivas.

As igrejas de matrizes tradicionais, como Assembléia, Batista e Presbiteriana costumam  se posicionar de maneira mais radical sobre o assunto. Silas Malafaia, líder da Igreja Assembléia de Deus Vitória em Cristo e uma das personalidades evangélicas mais notórias na televisão é o maior representante dessa corrente.

Em entrevista a jornalista Marília Gabriela, o pastor foi enfático ao defender a homossexualidade como sendo uma escolha comportamental: “Ninguém nasce gay, homossexualismo é um comportamento. Quem pode dizer que alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética. A única ciência que pode dizer isso é a biologia. Não existe ordem cromossômica homossexual, existe ordem cromossômica de macho e fêmea", defende.

Mais razoável quanto ao tema, o pastor Ricardo Gondim, líder da Igreja Betesda, entende que os direitos dos homossexuais é uma  demanda que deve ser observada e é favorável até mesmo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Nenhuma tendência religiosa tem o direito de impor as suas convicções sobre os demais. Eu sou a favor”, afirmou.

Defesa Bíblica

Há ainda quem defenda a homossexualidade como sendo algo naturalmente explicado dentro do cerne bíblico. É o que sustenta o casal de pastores Gladstone e Fábio Inácio, líderes da Igreja Contemporânea, fundada em 2006.  A denominação acredita que Deus não direciona suas bênçãos a um padrão familiar especifico.

“Não se restringindo a dita “família tradicional”, mas assim como Deus chamou a Abraão e disse: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” entendemos que aqui foi incluído pelo Senhor aquelas formadas por pares do mesmo sexo. A Igreja Cristã Contemporânea acredita que a família é também o maior projeto de Deus para homoafetivos", afirmaram Gladstone e Fábio Inácio.

A igreja no debate da Cura Gay

Projeto polêmico movimentou o meio evangélico no ano de 2013
Deputado Federal João Campos (PSDB), autor do projeto de lei intitulado de "Cura Gay". Foto: Diário da Manhã.
­­Um assunto que recentemente levantou polêmica envolvendo mais uma vez o meio evangélico e os homossexuais, foi o projeto de lei conhecido como “cura gay”. A proposta, de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO), foi aprovada em junho de 2013 pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, presidida pelo pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP).

Assim que divulgada, militantes da comunidade LGBT saíram às ruas contra o projeto e chamaram a atenção da mídia de todo o país. A proposta provocou polêmica porque suspenderia dois trechos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia, de 1999. Uma das publicações afirma que “os psicólogos não podem colaborar com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”. Em julho, devido  a pressão interna no partido, o deputado João Campos arquivou o projeto, que nem chegou a ir para a Câmara dos Deputados.

No meio evangélico, a pauta gerou controvérsias e dividiu opiniões entre os líderes religiosos. Para o Pastor Gleidson Ribeiro da Igreja Gera Vida de Aparecida de Goiânia, a abordagem do tema aconteceu em momento inoportuno e isso acabou alimentando uma guerra desnecessária: “O projeto visa garantir uma liberdade profissional ao psicólogo. Até ai tudo bem. Porém, apresentar este projeto naquele momento foi um erro e acabou incendiando ainda mais uma guerra entre os evangélicos e os homossexuais’’, frizou.

Já o pastor líder da Igreja Caminho da Graça e também psicólogo, Caio Fábio, defende que o projeto é totalmente sem sentido e declara: “Primeiro: desde quando a Psicologia cura gay? Segundo: desde quando a Psicologia cura qualquer coisa? Terceiro: desde quando a Psicologia oferece qualquer coisa que não seja auto-compreensão?”. As declarações foram feitas na página oficial da sua igreja no Facebook

O pastor aproveita ainda para criticar o deputado Marco Feliciano, e ataca: “Para o Feliciano é importante 'lavrar esse tento' do ponto de vista do que isso significa de 'testemunho' dele para o seu 'eleitorado' de pentecostais Talibãs.Citado por Caio Fábio, o pastor e deputado Marco Feliciano, líder da Igreja Tempo do Avivamento, é um dos maiores defensores da aprovação do projeto. Em comunicado ao público e à imprensa, ele afirmou que o termo “Cura Gay” foi criado para desmoralizar o projeto e citou as verdadeiras  intenções da pauta:

“O projeto tem como objetivo discutir em sua totalidade sofrimentos psíquicos gerados por não aceitação pelo indivíduo de sua sexualidade, seja ele heterossexual, homossexual ou bissexual. Significando que se a pessoa não estiver satisfeita com sua orientação, condição e ou opção, pode tentar, pelo menos, mudar se isso for o seu desejo e vontade”. O pastor ainda declarou no Twitter, em Julho de 2013,  que não desistiu do projeto e que existe a possibilidade do texto voltar a ser colocado em pauta em 2015. "O PDC não foi arquivado, mas retirado, e pode voltar", frisou.

Lugar de mulher é no púlpito?!

Protagonismo feminino ainda é tabu nas igrejas.
Aimée Semple Mcpherson, fundadora da Igreja Quadrangular, hoje presente em mais de 146 países. Foto: Gospel Mais

“As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque
não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei”. Esse trecho de 1Coríntios 14:34 é motivo de muitas discussões nas igrejas protestantes no Brasil. Tido para uns como ordenança de Deus dada ao apóstolo Paulo, proibindo o exercício de liderança e sacerdócio por mulheres,  é visto por outros como reflexo da sociedade naquela época (ano I d.C), mas não aplicável aos novos tempos.

A controversa não chega a criar animosidade entre as igrejas de confissão evangélica, mas é condenada afinco pela maioria da ala histórica, como Presbiteriana do Brasil e Luterana. Para o Reverendo Augustus Nicodemus, uma das vozes de maior expressão da Igreja Presbiteriana no Brasil, biblicamente não há como concordar com a liderança da mulher dentro da igreja. “Não é uma função que Deus atribuiu a ela”, sentencia.

Não é o que pensa a Igreja Metodista do Brasil, também de linha tradicional, que desde os anos de 1970 consagra mulheres pastoras e bispas, que comandam igrejas, ministram aulas em seminários e faculdades da instituição. Segundo o Ato Complementar 01/2007 da comunidade, aspirantes a pastoras “precisam ser indicadas e aprovadas por uma Comissão Ministerial Regional”, mesma condição impostas aos homens.

Já as igrejas pentecostais tem apresentado maior flexibilidade quanto a consagração de mulheres ao pastorado. A Igreja Quadrangular, por exemplo, foi fundada por uma, a canadense Aimée Semple Mcpherson, que após se divorciar, iniciou os trabalhos de sua igreja em 1944, hoje presente em mais de 146 países.

O mais recente ministério a conceder liderança às mulheres foi a Assembleia de Deus Madureira do Brás, em São Paulo. Mas elas não podem ser pastoras. São consagradas a missionárias, podendo até dirigir igrejas, mas não recebem o mesmo titulo destinado aos homens.